Sonho corinthiano vira pesadelo em três dias. Picerni resistirá?

* Publicado na Gazeta Esportiva de 01/02/1985

O Corinthians disputou quatro pontos e perdeu três. E, com isso, ressurgiu com muita força uma velha discussão: a validade sobra a escalação de dois ponteiros autênticos. Antes mesmo de o Campeonato Brasileiro começar, Jair Picerni anunciou que o time teria Paulo César e João Paulo. Serginho, o centroavante. Muita gente ficou surpresa e explodiu: “Isso é um absurdo. Nenhum time do mundo joga com dois ponteiros, ninguém joga com apenas três homens no meio de campo.” O técnico do Corinthians não recuou e manteve a posição inicial. O Corinthians empatou com o Vasco e perdeu para o Internacional. Os acusadores militantes voltaram suas baterias diretamente para a cabeça de Jair Picerni, com o objetivo de destruí-lo. Como um “super-time” pode jogar duas vezes e não conseguir nenhuma vitória? Essa pergunta foi feita dezenas de vezes, na quarta-feira à noite, nas arquibancadas, no vestiário e no estacionamento do estádio “Dr. Paulo Machado de Carvalho”.

Além dessa questão levantada por uma boa parte da torcida, uma outra foi insistentemente abordada: o melhor jogador do time, Paulo César, foi substituído. Qual o motivo? Esse técnico é maluco?

Poucas pessoas se importaram com as declarações do próprio Paulo César, afirmando que estava com uma forte gripe, que o desgaste tinha sido muito grande e ele próprio pediu a substituição. Foi atendido. Ainda assim, Jair Picerni não foi poupado. O técnico recebeu olhares desconfiados, críticos e ferozes. Admitiu ter ouvido o protesto de muitos torcedores que o chamaram de “burro”, quando o jogo estava terminando. É mais um técnico que vai sofrendo pressões, recebendo ofensas e sendo facilmente considerado o culpado de tudo. Culpado pela bola que bateu na trava, chutada por Serginho… culpado pela falha (assumida) de Juninho que proporcionou o gol do lance do Internacional… culpado pelos inúmeros gols perdidos por vários jogadores do Corinthians, dentro da pequena área. É, sem dúvida, a rotineira e absurda busca do bode espiatório. Jair Picerni não é perfeito, comete falhas, mas daí a ser apontado como responsável direto pelos pontos perdidos pelo Corinthians até aqui, é no mínimo uma precipitação.

Dezenas de torcedores, antes de a temporada ser iniciada, aprovaram a idéia dos ponteiros: “É isso aí. O Corinthians tem que ser ofensivo. Tem time pra isso. Os outros que se cuidem , o Corinthians vai atacar, em busca de gols, em busca das vitórias”. E com Serginho, Casagrande, Paulo César, Biro Biro, De Leon, Vladimir, um time não pode ficar excessivamente preocupado em não tomar gols, não é? Poderoso, no papel, o Corinthians estava adotando a filosofia do espetáculo, arrancando a aprovação dos torcedores mais radicais.

E, pelos dois últimos resultados, seria um erro qualquer mudança no tipo de filosofia de jogo. Mudar um jogador por outro da mesma posição é aceitável. Mas substituir um atacante por um meio campista é cair no lugar comum. Há vozes que aprovaram o conhecido 4-4-2 e são muitas. Mas ou o Corinthians assume uma postura diferente ou admite que, apesar das contratações milionárias, se equivale tecnicamente com todos os outros grandes clubes do país. Que jogam com quatro jogadores no meio de campo e com grande preocupação defensiva.

O Corinthians provou que foi bem no primeiro tempo do jogo contra o Vasco, jogando um futebol entusiasmante. Perdeu inúmeros gols, criou várias oportunidades e contra o Internacional, embora tenha sofrido o gol no início da partida, ainda assim teve várias chances de empatar o jogo. Não foi a presença da dupla de ponteiros que fez o Corinthians perder os três pontos. Foram erros individuais, não do conjunto, muito menos da filosofia.

Pena que Jair já admitia jogar com quatro jogadores no meio de campo, contra o Flamengo, no Maracanã. No Corinthians, onde são acenadas inovações, posturas e atos ousados, falam mais alto os pontos conquistados. No humilde CSA também é assim…

E até a última quarta-feira, além do Corinthians, São Paulo, Palmeiras, Santos Portuguesa de Desportos e Guarani não tinham conseguido nenhuma vitória. E todos – exceto o Corinthians – jogam com quatro jogadores no meio de campo. Mas com um agravante: apresentaram até agora, um futebol feio e sem criatividade, pensando muito mais na destruição do que no futebol espetáculo. O Corinthians, pelo menos, encheu os olhos dos torcedores no primeiro tempo do jogo contra o Vasco da Gama e provou que, se conseguir encontrar o entrosamento, poderá ser um oásis dentro do arranhado e maltratado futebol brasileiro.

Mas para isso há a necessidade de coragem do técnico, do apoio da diretoria de futebol, do trabalho sério dos jogadores e da paciência da torcida. Horas antes de o Campeonato Brasileiro ser iniciado, milhares de torcedores afirmaram que Carlos, Edson, Juninho, De Leon e Vladimir, Dunga, Biro Biro, Casagrande, Paulo César, Serginho e João Paulo, formavam o time dos sonhos, não é estranho que três dias após esse sonho tenha se tornado pesadelo? E no banco, como alternativa depois de o jogo ter começado, Picerni tem Arthurzinho e Eduardo. Para o bem do futebol, estou torcendo para que Picerni resista às pressões. Aplausos para um futebol ofensivo, em busca dos gols.

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