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VAMOS LÁ BRASIL!

Em matéria especial para o jornal A Gazeta Esportiva, Wanderley Nogueira mostra a expectativa do povo para conhecer o novo técnico do Brasil na Copa de 86. Minelli, Zagallo ou Telê. Em dezembro de 1985 

 

        Exatamente dentro de um mês será conhecido o novo presidente da Confederação brasileira de Futebol. Medrado Dias ou Nabi Abi Chedid? E horas depois da posse estará surgindo – finalmente – o nome do novo técnico da Seleção do Brasil: Zagalo, Minelli ou Telê? Essa é a grande esperança do torcedor brasileiro. Todos gostariam que o país já tivesse um time jogando, treinando, orientado por um técnico definitivo. quem vai decidir quem fica ou quem sai, quem deve ou nuito da posiçsseguram que devem ficar no clube apenas Carlos e o zagueirO brasileiro é otimista, tem fé... faz restrições, critica, mas acredita no sucesso de suas teses e empreitadas. O brasileiro é assim, não desanima nunca.

Inflação, corrupção, promessas não cumpridas, as dores provocadas pela Velha República, as decepções criadas pela Nova República, nada disso é capaz de destruir a esperança que palpita no peito do brasileiro. A fome faz surgir alternativas de alimentação, a sede faz as pessoas descobrirem a “água do cacto”. É um país diferente esse Brasil, imbatível, capaz de derrotar com dignidade suas dificuldades e inflações. Não fosse assim, estaria inteiramente abatido, debruçado e quase inerte.

Entre as instituições importantes no país, está o futebol. Ou não? Alguns pseudo-gênios ingressarão pelo caminho da Sociologia ou Ciência Política para assegurarem que “isso é um engodo, um ópio” e outros chavões absurdamente absurdos. O povo tem problemas, tem consciência disso (não é possível enganar o estômago ou o coração), às vezes reage, proteste e grita, mas nem por isso deve deixar de amar as suas coisas, e o futebol é uma delas. Talvez os dirigentes, atuais do futebol brasileiro ( e os presidenciáveis) não tenham percebido integralmente qual a importância de um futebol bem dirigido ou, no mínimo, com razoável dose de lealdade e bom senso.

 

Caos nacional

E este ano que está chegando ao fim não foi um bom período para o selecionado brasileiro. Em determinados instantes, milhões de torcedores chegaram a duvidar da classificação do futebol brasileiro para o Campeonato Mundial do próximo ano. Seria um caos nacional. Sem dúvida, seria um golpe bem mais doloroso que a inflação superior aos 10% mensais. É verdade... O homem se habitua com a fartura e com as dificuldades. Ele não acredita, mas depois de certo tempo – infelizmente – a dor tora-se insuportável. E no futebol?

Nesse campo a situação é diferente. Tanto para o magnata quanto para o humilde bóia-fria sem emprego. Seria “inadmissível” para qualquer torcedor brasileiro a desclassificação da seleção. A dor seria insuportável. Reagir? Uma missão muito difícil, grandiosa.

O futebol, o produto nacional, meio de vida (e de morte) de tanta gente, fonte geradora de emoções, participante de doze mundiais, não poderia ficar de fora do décimo terceiro...

Depois do Mundial de 1982, a Seleção passou por muitas mãos. Parreira, Edu, Evaristo de Macedo... mas voltou par o jeito mineiro de Telê Santana. Foi uma exigência nacional, quase uma imposição.

E ao longo dos últimos anos foram, jogos sem entusiasmo, com erros, com carência de bons jogadores irregulares e até o surgimento de alguns fatos positivos, como por exemplo, a personalidade de Casagrande, um jogador que fascinou o técnico Evaristo de Macedo e teve a sua garra recompensada também pela convocação determinada por Telê Santana, no seu retorno.

Alcançada a classificação diante de paraguaios e bolivianos, a Seleção Brasileira foi desativada. Com uma autêntica estatal pessimamente dirigida. As máquinas foram simplesmente desligadas e pronto. Giulite afirmou que fez a sua parte: classificou o Brasil. Os últimos seis meses foram de inércia. E no fundo, a culpa não é do atual presidente da CBF. Afinal, a legislação obriga a sua saída no início de janeiro. Se convidasse um técnico, Medrado ou Nabi poderiam não concordar, demitindo-o após a posse. Seria inteiramente utópico imaginar-se Giulite, Medrado, Nabi, Ermírio, Havelange, Rebouças, Dílson... encontrassem um nome que agradasse a todos em nome do futebol brasileiro.

 Grande perigo

Dizem no Exterior, que o Brasil é um país que não faz previsões. E no futebol é assim mesmo. Todos sabem que após a Copa de 82, o futebol brasileiro precisaria preparar-se para alcançar a classificação com razoável facilidade. Técnico e jogadores deveriam ser preservados e orientados com uma boa margem de tempo. Nada disso foi feito. Foram testados técnicos e jogadores sem nenhuma condição de atuar no México - 86.

Muita gente nem falava das Eliminatórias. Falavam diretamente do Mundial.

E foi o grande perigo. Quase o Brasil ficou de fora da Copa – 86. Foi necessário a salvadora chegada de Telê Santana, com unanimidade nacional.

E o futebol brasileiro continuará fazendo planos “acima dos joelhos”. Garantida a classificação, pensaram alguns idealistas, tudo vai melhorar. O time fará jogos mensais. O técnico vai acompanhar os jogos marcados e Telê Santana não conseguiu quebrar o compromisso com os sauditas.

As principais seleções do mundo estão treinando, jogando, participando de torneios, corrigindo falhas, buscando virtudes. Mas o Brasil não.

Sinceramente, Telê Santana vem a público e confessa que não tem acompanhado o futebol e sem dúvida cometeria injustiças na convocação. Zagalo está descansando, fora do futebol. Minelli ficou a temporada no Grêmio (foi campeão) e agora assinou contrato com o Corinthians.

 

Resta acreditar

E agora? A seleção tem o mínimo necessário: só sabe que irá ao México e ficará em Guadalajara (tem até hotel reservado). A CBF garante que três amistosos estão marcados para a Europa antes da viagem para o México e também o período de treinamentos está estabelecido. Foi levado em conta o projeto de preparação feito em 1970, com sucesso. Sem grande criatividade, apenas alguma convicções, nada mais.

Só resta ao brasileiro, o otimista brasileiro, acreditar. Alguns – afinal vivemos uma razoável abertura – reclamam, protestam, criticam, mas sempre terminam as frases dizendo “vamos ver... no fim acho que vamos ganhar”.

Zagalo, Minelli e Telê entendem que se a seleção for formada na segunda quinzena de janeiro “o tempo será suficiente para a montagem de um bom time”. Tomara. Até os próprios treinadores já se habituaram à falta de organização do futebol brasileiro. Essa postura jamais partiria de um treinador alemão, francês ou inglês.

A Itália, por exemplo, está indignada. Falcão sempre recebe telefonemas de jornalistas italianos exigindo explicações: “Porque este comportamento do Brasil? Será que está tão forte que nem se importa em formar a sua seleção?” De forma constrangedora, Falcão explica que “a CBF está enfrentando problemas e vai montar o selecionado no início do ano”.

Os italianos estão irritados pensando que o Brasil (no popular) é mascarado. Pensam que estamos sem seleção por um excessivo sentimento de superioridade. Não imaginam que o brasileiro está angustiado, tenso, preocupado, alguns até pessimistas. Asseguram que já sabemos quem será o treinador, qual será o time titular e tudo mais. Estão desinformados, não?

Os próximos dias serão decisivos, Medrado Dias e Nabi Abi Chedid tem a responsabilidade de minimizar o drama. Os dois deveriam acertar com o técnico preferido, com o diretor de futebol. Deixar tudo mais ou menos engatilhado. Esperando apenas a decisão dos 25 eleitores. Cada dia sem previsão será terrível para o selecionado. Os jogadores vão entrar em férias, virão alguns quilos mais pesados, partiram para um período de férias sem nenhuma orientação. Em outros países os selecionados são informados de como devem agir no período de descanso. Um jogador que tem a possibilidade de ser convocado tem que recorrer a alguns cuidados especiais. No Brasil, é diferente. Mais uma falha.

Além da criatividade e habilidade do futebolista brasileiro, o povo está contando com a fé. Uma espécie de seleção da fé, ginga e dribles. Tomara que, mais uma vez, a falta de organização do futebol brasileiro seja superada pelo tradicional jeitinho, algo que habitualmente dá certo. Em qualquer atividade: economia, indústria, agricultura e, claro, no futebol.

 

E o humilde Telê confessa que está por fora...

Sentado á beira da piscina, nos “Sítio Curva do Avião”, o técnico Telê Santana está fascinando com o verde. Nos últimos anos, tem sentido apenas o forte sol da Arábia Saudita e visto raras árvores. A areia predomina e a solidão do deserto é implacável. Os poucos momentos de lazer são consumidos com banhos no mar vermelho. Mas, tudo voltou ao normal. O caboclo Telê Santana voltou à terra, cuidando dos patos, das galinhas, plantando café e subindo em pé de manga. Tudo isso é ainda mais saborosa quando observa os zeros de uma respeitável conta bancária. E Telê merece o sucesso. É sério, bom profissional e extremamente eficaz. Teve a humildade de responder que não tem acompanhado o futebol do Brasil e poderia cometer injustiças:

-- Seria um absurdo mentir. Nos últimos meses fiquei na Arábia Saudita mais uma vez e não pude acompanhar com freqüência o futebol dos principais jogadores do Brasil. Sem dúvida, correria o risco de cometer injustiças numa convocação. Essa é a verdade. Seria muito difícil ver “tapes” de dezenas de jogos, mas não impossível. Se a CBF entender que a minha presença é necessária, não fugiria do convite. Nunca fugi de desafios e não seria agora. Mas, sempre pautei a minha vida falando a verdade e não será leal afirmar que da Arábia Saudita eu acompanhei os principais campeonatos regionais.

No Brasil, falam muito de Minelli. Qual a opinião de Telê?

-- Excelente treinador. Um profissional competente, que dirigir grandes equipes e sempre com sucesso. Seria um ótimo nome para dirigir o selecionado brasileiro.

Na Europa, Telê Santana ainda recebe elogios pelo futebol da selecionado na Espanha. Ele é tido como mágico, capaz de fazer um time jogar bonito e conduzir “os mais importantes jogadores brasileiros”. Embora o Brasil não tenha alcançado o título, o prestígio de Telê não sofreu nenhum arranhão.

A rotina prossegue: acorda às 7 horas e uma hora depois já está jogando uma partida de tênis. Na Arábia Saudita, não conseguiu onze amigos para formar um time de futebol, então foi obrigado a aprender um esporte mais simples. Seus adversários? Príncipes e presidentes de multinacionais.

Mas a paz pode acabar dentro de algumas semanas. A mulher, Ivonete, o filho René, a nora e os netos... sabem que a agitação pode voltar. E se o convite surgir, Telê não pensará duas vezes para aceitar. Ele sabe que ele, ou Zagalo, ou Minelli terão uma difícil missão pela frente, mas a Seleção Brasileira compensa qualquer obstáculo. As emoções, as alegrias e as mágoas são absolutamente inesquecíveis.

 

WANDERLEY NOGUEIRA.