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No futebol, mistério invisível não tem graça
Os jogadores da Seleção Brasileira disseram que treinos fechados e misteriosos ajudam. Eles alegam que adversários, imprensa e torcedores ficam sem saber nada. Treinos secretos servem, também, para retaliar a imprensa que tem informado coisas que não agradam à Seleção.
E, diante disso, na hora do jogo todos verão surpresas. Os adversários ficarão hipnotizados, a imprensa embasbacada e o público boquiaberto. Claro, não foi o professor Dunga que inventou o treino fechado. Ninguém sabe ao certo quem foi o primeiro treinador a mandar trancar as portas de um treinamento de futebol no mundo.
Mas toda vez que chega a informação sobre esse tipo de decisão, lembro do grande Mengálvio, astro do time de Pelé. Depois de muito tempo fora de casa, viajando com o maior Santos de todos os tempos, resolveu surpreender a família e enviou um telegrama. Chegarei de surpresa dia 15, às duas da tarde, voô 619 da VARIG.
Toda vez que um time ou uma seleção faz treino secreto eu observo com mais atenção o próximo jogo. Só para tentar descobrir o que poderia ser sido criado e treinado longe de olhares estranhos. E nada aparece pelo menos, nada que não tenha sido insistentemente mostrado por milhares de times e jogadores.
Dá a impressão que treinaram surpresas e resolveram não mostrá-las para ninguém. No futebol, mistério invisível não tem graça. Segredo que todo mundo sabe, não tem nenhum valor. Quem acompanha times e seleções sabe perfeitamente que essa conversa dos treinadores não é verdadeira.
Todos querem mesmo é a imprensa bem distante. Colocaram na cabeça que a imprensa torce contra. E tem gente que acredita. Quase todos os treinos são muito parecidos. Nada é criado, tudo é repetido. A imprensa, certamente, registraria que o chamado treino secreto não passa de uma falácia.
Os treinos abertos não mostram nada de novo, nada profundo. Quase sempre é uma movimentação inócua, vazia, oca. Quando dois jogadores discutem depois de uma falta, vira o grande assunto. Já que o treino não atraí a atenção de ninguém, rusgas ocupam o espaço. É compreensível.
Já adaptados com a bola Jabulani, não há outra desculpa para justificar os chutes fora do alvo. É melhor não dar combustível para aqueles que torcem contra.
Jogadores e treinadores deveriam ser sinceros e falar claramente que desejam treinar privadamente. Gostar do silêncio não é nenhum crime. O professor Dunga tem direito de achar que o genial Charles Chaplin tinha razão quando disse que o som aniquila a grande beleza do silêncio.
Sem olhares intrusos. Sim, todos que não são da delegação são considerados intrometidos, espiões e inimigos. Integram aquele grupo acusado de torcer contra.
É lícito aos times e seleções o direito à privacidade. Não querem ser monitorados e registrados naquilo que consideram território interno. Só é ingênuo imaginar que todo mundo acredita nessa história de que treino secreto tem importância técnica ou tática.
No futebol, treino secreto se tornou previsível, monótono e evidente.
WANDERLEY NOGUEIRA
Com toda essa tecnologia, beleza é obrigação
Serão 32 câmeras HD em cada jogo da Copa do Mundo, microfones extremamente sensíveis, computadores com recursos impensáveis, gravadores que captam até pensamentos, satélites, links, fibra ótica, celulares com centenas de ferramentas e muitos outros recursos maravilhosos à disposição de todos os meios de comunicação.
Bilhões de pessoas estarão acompanhando as partida de futebol deste Mundial.
No campo da tecnologia a cada quatro anos o crescimento é fantástico. Para quem gosta, é uma delícia.
Não há mais nenhum traço de privacidade na execução do trabalho de um jogador de futebol. Tudo é visto e ouvido. Sobre o campo de jogo o jogador está nu.
Será possível, mais uma vez, identificar quem sabe ou não jogar um bom futebol.
O domínio, a velocidade, o passe, o drible, a dividida, o chute, a falta, a cotovelada, o soco, o palavrão Nada passará impune. Tudo será visto e avaliado.
Só resta saber se os artistas da bola vão justificar todo essa parafernália técnica sobre eles.
Se depender desse primeiro jogo, algo me diz que - como em qualquer show importante - que o talento virá no final e, tomara, com toques de genialidade.
O desejo é que a beleza invada os nossos olhos. A tecnologia será capaz de mostrar tudo detalhadamente, sem esconder nada.
Para ver jogos feios, é preferível ter TVs e rádios movidos a válvulas, os velhos computadores 286, imensos gravadores de fita e muitas outras velharias tecnológicas.
Com a nitidez que nos oferecem hoje, só vale a pena a beleza. Afinal, os pensadores dizem que a beleza salvará o mundo, que a beleza é o dom de Deus e quem possui a faculdadede ver a beleza, não envelhece.
Eu acredito nisso, espero que os jogadores não estraguem tudo.
WANDERLEY NOGUEIRA
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- O jogador Kaká em jogo do Brasil na final contra Bélgica em 2008 às vésperas de receber seu contrato para sair do brasil
http://enfiadasdebola.blogspot.com/2008/07



