Biografia
- Quem é Wanderley
- |
- O apoio da família
- |
- O bom humor
- |
- 30 anos de rádio
- |
-
A amizade - |
- Dicas para viver bem
Agora, vamos falar sobre a questão da amizade. Todo mundo que deu entrevista para este livro falou sobre amizade. Você fez bons amigos aqui? WN - Eu acho que sim. Acho que fiz bons amigos e sempre que pude, muita gente me ajudou, muita gente colaborou comigo, muitas pessoas foram parceiras minhas nos bons e nos maus momentos. Eu acho que tenho que fazer a mesma coisa. Se eu puder ajudar, ajudo de coração aberto em todos os momentos... momentos menos traumáticos também. Eu poderia contar muitos casos, mas não cabe aqui. Mas, sem dúvida, se eu puder ajudar eu ajudo. Agora, Wanderley, para finalizar, tem alguma história nessas viagens todas... em 25 anos de rádio, devem existir muitas histórias, mas tem algum acontecimento, alguma experiência que você tenha tido em viagem ou reportagem que tenha descortinado um mundo novo, uma coisa que você não imaginava encontrar, um costume diferente, um local diferente? WN - São 25 anos. Então, é difícil vir alguma coisa na cabeça. Até porque eu não gosto muito de registrar essas coisas, porque acho que um dia vou escrever um livro. Eu preciso escrever um livro contando histórias, mas eu tenho que passar seis meses escondido só pensando nas coisas, tudo aquilo que aconteceu nesse tempo todo. Coisas profissionais e não profissionais. Eu acho que daria um livro maravilhoso. Então, eu não registro. Mas, aconteceram tantas coisas que eu não consigo discorrer agora. A gente enfrenta tanta coisa. Por exemplo: Você vai a cordilheira dos Andes, atravessa a cordilheira por uma estrada bloqueada. Não tem jeito: você tem que ir por dentro da cordilheira, no topo da cordilheira, sem acostamento, em cima de um caminhãozinho, cinco mil metros para baixo, neblina e você vê um jipe velho. Parece coisa de filme, mas a gente fez isso para poder transmitir porque caiu uma barreira na estrada Panamericana, que tem um nome tão pomposo, a Grande Rota. É um lixo. Então, caiu uma barreira e você precisava chegar de um lugar a outro, de Cuenca a Quito. Então, você tem que ir por dentro da cordilheira. Quer dizer: com barro até o pescoço, lama até o pescoço, um jipe velho e, que no topo da cordilheira, furou o pneu. Você imagina essas coisas e só pensa em filmes. E você consegue chegar, depois de muitas horas, obstáculos, arranca galho de árvores, vai cem metros na frente, pára, se aparecer outro carro, vão me jogar para baixo da ribanceira. Essas coisas vem todas à cabeça. Eu fui para um lugar chamado Surabaia. Surabaia fica na Ásia, terra da tartaruga gigante. Para chegar a um lugar ou outro, três ou quatro horas para andar 50 quilômetros. Você imagina a estrada. O ônibus que tinha um volante com jogo terrível e abismo para os dois lados. Para chegar a um determinado lugar em Surabaia, já fiz um pouso forçado no mar da Ásia com um aviãozinho de 25 lugares. Começa a vir essas coisas na cabeça. Uma vez, num dia 6 de outubro, data em que me casei com a Nilde, eu fui a um casamento na Indonésia, só porque eu estava morrendo de saudade da minha mulher. Um casamento absolutamente diferente. Os noivos ficam doze horas sentados num templo e as pessoas vão chegando com frutas. Então, o templo fica lotado de frutas. Fui lá ver o casamento porque estava com saudade da Nilde. O convite era um leque que guardo até hoje. Para lembrar que eu estive naquele lugar. Peguei o M-19, guerrilheiros da Colômbia, fiz entrevistas com eles. Peguei o vulcão da Colômbia, em que morreram mais de 20 mil pessoas. Peguei um terremoto no México em que morreram, só em uma escola, quase 500 crianças. Fiz o terremoto do México, fiz o vulcão da Colômbia. Quando achei que tinha me livrado do terremoto, nós pousamos em Bogotá, a erupção do vulcão. Fiquei em Bogotá e fui com a Defesa Civil francesa, que estava ajudando os colombianos a sobrevoar o local. Gravamos tudo isso e colocamos no Jornal da Manhã da Jovem Pan. Tem matérias que, se começar a pensar, tem coisas inesquecíveis. Coisa que quem fez, fez e quem não fez não vai fazer nunca mais. Não tem jeito de fazer, são coisas que aconteceram. Peguei toque de recolher na Malásia. Então, a gente ia caminhando junto às paredes para chegar a um posto de telégrafo. Fechado de madrugada. Você só vê isso em filme. Bate no telex e a tecla vai até o fundo e depois volta. Veja a lentidão para você poder mandar algum tipo de mensagem, algum tipo de informação. Ligação telefônica demorava de cinco a seis horas em alguns lugares em que estive. Então, hoje, é uma outra coisa, essas coisas todas vão ficando na sua cabeça. São coisas incríveis. Isso que eu falei da América do Sul, ônibus cheio de galinha, porco, aquelas pessoas que você só vê em filme e você dentro do ônibus. Passando por aquela experiência, muda a cabeça. É minha herança. Eu sou um cara riqu&ioacute;ssimo. Minha conta, minha bagagem, meu cofre dessas experiências é impensável. A gente até esquece. A gente tem que ir falando para lembrar. Tenho muita foto disso tudo que já vivi. Nessa viagem cheia de vulcões e terremotos, fiquei 119 dias fora. Quando eu saí, o meu filho não andava. Quando eu voltei, você sabe que uma criança muda rapidinho, em dois ou três meses, encontrei um molequinho correndo no aeroporto: era o Rodrigo. Fui para países incríveis, onde pessoas não costumam ir. Eu acho que vivi mesmo e ainda tenho tanta coisa para fazer, acho. É uma coisa totalmente fascinante. Minha mulher sabe disso. Meus filhos sabem disso e eles incorporam isso. Eles acham isso um tesão. Eles acham uma coisa fascinante. Isso não tem preço. Se você pensar em tudo o que tem hoje em dia, do que você mais se orgulha? WN - Eu me orgulho de tanta coisa. É um grupo de coisas. Eu já pensei nisso. Eu me orgulho de ter sido um cara honesto a vida inteira, me orgulho de ter uma explicação para tudo, me orgulho da mulher que tenho, me orgulho dos meus filhos. Vamos parar porque me sinto muito emocionado... |
Entrevista a Álvaro Alves de Faria, extraída do livro "Jovem Pan: A Voz do
Rádio" (RG Editores)
AA - Wanderley Nogueira é uma pessoa que, estando em Lisboa às 3 horas da madrugada (23 horas no Brasil), numa casa de fados na Alfama, ao lado de sua mulher Nilde, liga pelo celular e diz:
WN - Poeta, estou tomando um vinho e me lembrei de você. Quero que você ouça este fado.
AA - E deixa o som do fado com seu poema de amor atravessar o Oceano Atlântico.
AA - Depois pergunta:
WN - Gostou?
AA - Em sequida diz:
WN - Tomo um gole em sua homenagem!
AA - E desliga.
AA - Coisas assim revelam quem é Wanderley Nogueira, repórter de esporte da Jovem Pan, amado por todos por sua competência e cordialidade constante em tratar com as pessoas, com seus cinco cães e ao cuidar, todos os dias, da gruta que tem no enorme quintal, homenagem à Nossa Senhora...
Veja Também
- Álbum de fotos pessoais
- Sr. Octávio Rizzo, pai de Wanderley Nogueira.
Foto: Arquivo Pessoal
