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Olhos de repórter

Texto do livro "A Violência no Esporte", vários autores. 1996.
(Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania)


Wanderley Nogueira
Jornalista Esportivo da Rádio Jovem Pan

As imagens transmitidas, ao vivo, diretamente do Estádio "Paulo Machado de Carvalho", no bairro do Pacaembu, capital do Estado de São Paulo, tiveram o poder de começar uma grande mobilização contra a violência nas praças esportivas.

As câmeras da TV Globo foram poderosas. Durante muitos dias, depois daquela manhã de domingo, o assunto principal era a exigência da opinião pública, querendo rigorosas providências. Os "torcedores uniformizados" do São Paulo e do Palmeiras mostraram ao Brasil e para quase todos os países do mundo um espetáculo trágico. Mais de cem pessoas ficaram feridas com pauladas e pedradas. Uma, morreu depois de alguns dias. Os "torcedores uniformizados", nos últimos anos, têm agredido pessoas e destruído patrimônios. E sem recuar muito no tempo é fácil encontrar alguns assassinatos na caminhada das "uniformizadas". A impunidade é quase tão assustadora quanto os atos criminosos.

Milhões de pessoas assistiram, chocados, às agressões. Rádios e jornais deram amplo espaço, cobraram providências da Polícia e da Justiça. Os políticos, quase todos comprometidos com as "uniformizadas", se omitiram. Foi preciso a opinião pública cobrar duramente, para vereadores, deputados e senadores mostrarem que também queriam acabar com a violência nas praças esportivas. A explicação pela cumplicidade com o silêncio é fácil de ser explicada, quando vem à tona que nos períodos de eleições as "uniformizadas" se tornam cabos eleitorais de quase todos os candidatos. O fim da impunidade era o desejo revelado nas entrevistas pela população da cidade. Os agressores deveriam ser identificados, processados e afastados dos estádios. Esse era um desejo unânime. Até hoje, muitas pessoas atingidas pelas imagens da violência não voltaram aos estádios.

Muitas reuniões discutiram o assunto. Juristas, policiais, jornalistas, dirigentes esportivos, promotores apresentaram sugestões. Os aspectos sociais, corretamente, não foram esquecidos. Os palestrantes pediram uma melhor educação no País e uma justa distribuição de renda para evitar "guerras" nos estádios. Mas a situação de emergência exigiu providências imediatas, independentemente da luta que todos devem travar em defesa da justiça social. A falta de organização e a impunidade alimentam a violência. Alguns ilustres analistas lembraram que em todas as épocas e em todas as sociedades sempre houve violência. Ficou claro que as alternativas são a prevenção do delito e punição dos infratores. Vereadores, Deputados Estaduais e Federais e Senadores apresentaram projetos de lei sobre medidas de prevenção e repressão para vencer a violência nas praças esportivas.

A nossa experiência, viajando nos últimos vinte anos por todos os continentes, visitando dezenas de estádios e observando os sistemas de segurança e organização dos principais eventos esportivos do mundo, nos dá a certeza de que há maneiras eficazes de diminuir sensivelmente a violência nas praças esportivas. A situação é grave, especialmente em São Paulo. Lamentavelmente os dirigentes esportivos, acobertados pela concordância das autoridades de segurança, insistem em protelar a numeração de todos os lugares dos estádios. O custo é baixíssimo. Os números podem ser pintados nas arquibancadas de cimento. Com os lugares numerados seria possível, em curto prazo, conhecer o nome do torcedor, por exemplo, sentado na fila G, número 57, da arquibancada laranja. A segurança continua sendo ignorada e o anonimato nos estádios é extremamente preocupante.

Todos os estádios com capacidade para mais de 15 mil pessoas deveriam ser obrigados a ter câmeras de segurança instaladas na área interna. As bilheterias não deveriam ser autorizadas a vender mais de 10 ingressos para cada torcedor. Essas medidas são de simples implantação e aumentariam consideravelmente a tranqüilidade dentro dos estádios brasileiros. Identificar os "amantes da confusão" e pedir providências judiciais para impedi-los de comparecer aos estádios nos horários das partidas. Em alguns países da América do Sul e da Europa, os torcedores agressivos são "escalados" a prestar serviços comunitários nos horários dos jogos dos seus times. Recentemente tivemos uma decisão similar proferida pelo Juiz de Direito Luis Flávio Gomes. Seria importante que os Juízes das Varas de Menores seguissem esse caminho para impedir que garotos e garotas fascinados pela violência compareçam aos estádios.

Foi correta a decisão da Federação Paulista de Futebol proibindo a presença das "torcidas uniformizadas" nos estádios. O retrospecto dos últimos anos não apontava para uma solução menos traumática. Foi um duro golpe nestes verdadeiros batalhões de combate e claramente eles sentiram que a medida foi aplaudida pela opinião pública, cansada de tantos atos agressivos, absolutamente impunes. As camisas dos clubes devem invadir os estádios, mas camisas de "uniformizadas" precisam ser rejeitadas. Alguns líderes de "uniformizadas" ousaram dizer que as suas "torcidas" são mais importantes que os próprios clubes. Outros, mais atrevidos, expulsavam os torcedores comuns dos bons lugares dos estádios. Tudo sob os olhares omissos de dirigentes e policiais. Alguns analistas precipitados e desinformados chegaram a dizer que o baixo número de torcedores é motivado pela ausência das "uniformizadas". Não é verdade.

A violência das "uniformizadas" afastou muita gente e os péssimos sistemas de disputa não fascinam os "consumidores", além da dose excessiva de jogos transmitidos pelas emissoras de televisão. Tudo isso somado ao desconforto dos estádios, falta de transporte, dinheiro...

Outra norma que deveria ser implantada e os dirigentes insistem em colocá-la em prática de quando em quando, é a não vendagem de ingresso nos dias dos jogos. As bilheterias não deveriam funcionar nos dias de partidas. Nada de aglomeração, nada de confusão.

É fundamental que os dirigentes esportivos incentivem a presença de mulheres e crianças nos estádios. O comparecimento de novos e melhores torcedores só ajudaria no crescimento do evento. Estatísticas mostram que quando o número de mulheres e crianças é grande, praticamente não há nenhuma ocorrência policial.

Além de tudo isso, os estádios devem ser limpos, os sanitários bem cuidados, bebedouros nos corredores e o excesso de jogos precisa acabar. O intervalo de 72 horas entre uma partida e outra deve ser respeitado. O não cumprimento é uma grave violência. Há uma clara sobreposição de datas e acúmulo de jogos. É necessária uma imediata reciclagem no quadro de árbitros. Ineficiência do árbitro também é um fator alimentador de violência. O futebol deveria ser dirigido por dirigentes remunerados e competentes. Também a imprensa deveria avaliar seu trabalho evitando abordagens que tratam eventos esportivos como verdadeiras batalhas sangrentas. Competição esportiva deve ser repleta de emoção saudável e aprimoramento técnico e tático. Encontrar a paz nos estádios não é uma missão impossível, mas é preciso ter disposição, coragem e uma boa dose de seriedade para atingi-la.

   
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