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O DEMOCRATA CARLOS ALBERTO
QUER O FIM DESSE SISTEMA
(De Wanderley Nogueira, especial para A Gazeta Esportiva) -Quando o brilhante
publicitário criou o slogan "Democracia Corintiana" ele
já sabia que a repercussão seria positiva. Afinal, a nação
estava ansiosa por viver democraticamente. A palavra democracia era sinônimo
de oxigênio. Milhares de brasileiros sonharam e trabalharam por
ela, para a sua implantação plena, algo que até hoje
não ocorreu. O sistema de trabalho apresentado por Adílson Monteiro Alves,
batizado oportunamente com o nome de "Democracia Corintiana",
teria sido realizado normalmente se, por exemplo, fosse qualificado como
"liberdade e responsabilidade". Mas pela conhecida atuação
política do ex-vice-presidente do Corinthians, o chamamento democrático
foi considerado muito mais interessante e ideal na opinião dos
ideólogos consultados. A inovação foi recebida com agrado pelos jogadores. O fato
de o Corinthians "acabar com a concentração" para
os casados foi recebido com vibração pelos jogadores e pelas
esposas. Além disso, Adílson implantou reuniões diárias,
assuntos discutidos, "roupas lavadas" e falhas corrigidas. Mas
nem todos os jogadores estavam entendendo o método e os caminhos
desse sistema de trabalho. Os que não conseguiram absorvê-los
foram postos à margem, ignorados. Quase tudo era discutido e aqueles com maiores poderes de argumentação
defendiam teses e posturas, não raro a aprovação
surgia por unanimidade. Publicamente, "o grupo está fechado",
dizia Adílson Monteiro Alves. Mas, na realidade, os introvertidos,
constrangidos, sem condições de contra-argumentar. Liderado
pelo cérebro talentoso de Sócrates, o Corinthians ganhou
jogos, pontos precioso e títulos. O sistema de trabalho tornou-se
o assunto preferido por todos os cantos do país. Era absurdamente
impossível se falar de futebol sem abordar a "Democracia Corintiana". Mas ela também faz as suas vítimas, como qualquer outro
regime. Capitularam Mário Travaglini, Jorge Vieira, Jair Picerni
e ficaram marcado jogadores considerados opositores, como Biro Biro, por
exemplo. Ao longo de toda a implantação da "Democracia
Corintiana" surgiram denúncias, quase sempre não levadas
a sério, de que "tem gente confundindo democracia com bagunça".
Os técnicos que caíram abatidos aos pés do regime
(Travaglini, Vieira, Picerni) garantiram que o sistema de trabalho adotado
por Adílson Monteiro Alves estava sendo distorcido, ingressando
por caminhos da anarquia e irresponsabilidade. Todos eles disseram isso
e evidentemente foram contestados e até acusados de conservadores
e ditadores. Adílson Monteiro Alves foi buscar Carlos Alberto Torres. E, sem
dúvida, foi uma das contratações mais badaladas do
futebol brasileiro. Além de ter envolvido milhões de cruzeiros,
a contratação do técnico levou até equipamentos
especiais para a transmissão ao vivo por televisão. E esse
é o técnico que vem a público, oficialmente, e diz
que esse negócio de "Democracia Corintiana tem que acabar".
Carlos Alberto Torres diz que o sistema de trabalho é falho, não
é sério, não é profissional e nenhum "técnico
ou time terá sucesso ou vai alcançar alguma coisa se esse
conceito não mudar". Os próprios jogadores admitem que "as coisas não vão
bem, que o elenco está desunido e que alguma coisa precisa acontecer".
Vladimir rejeita a tese do treinador, que defende o fim do sistema de
trabalho chamado de "Democracia Corintiana". As divisões
proliferam e o clima no Corinthians é tenso. Não há
lugar para todos no Parque São Jorge. Isso é definitivo. A diretoria garante que vai prestigiar o treinador e isso significa que
realizará a reformulação imediata exigida pelo técnico:
dispensar, emprestar, vender e contratar. E Carlos Alberto já até
sugeriu o nome de Nunes, "um jogador que se aplica sempre, quer ganhar
sempre e não existe nunca". Todos os sintomas mostram que no Corinthians o respeito é muito
frágil. E a restituição do projeto é muito
mais difícil do que a do dinheiro, como diria o Padre Antônio
Vieira. Os ideais de Adílson Monteiro Alves são conhecidos
e todos eles agradáveis de serem defendidos. Mas precisa ficar
bem claro que o sistema de trabalho chamado de "Democracia Corintiana"
consiste em não só acabar com a concentração
e discutir todos os problemas do grupo. Isso é simplista demais
para ser chamado de sistema revolucionário. O que Adílson Monteiro Alves pretendeu e que até mesmo
no tempo em que dirigiu o futebol do clube foi desvirtuada a presença
da responsabilidade, aplicação, honestidade, seriedade e
compreensão... tudo naturalmente. Ele lutou para que os profissionais
do futebol entendessem que não precisavam ser tratados como garotos
travessos, que recebem palmadas na bunda diariamente. Carlos Alberto Torres, atual técnico do Corinthians, diz que ele
deseja trabalhar com "jogadores que queiram ganhar muito dinheiro
e isso significa trabalhar duro e seriamente. E mais: treinar com aplicação,
cumprir horários estabelecidos pela organização de
futebol, procurar corrigir os seus defeitos e aceitar as decisões
do treinador, como ficar no banco de reservas, por exemplo". E além da posição de Carlos Alberto Torres, a diretoria
do clube precisa assumir uma postura de comando. Sem o surgimento da temível
ditadura, mas um comportamento que projete segurança diante dos
torcedores e dos próprios integrantes do futebol corintiano. Sem
cometer injustiças, o Corinthians precisa eliminar todas as rachaduras
que afetam a sua estrutura e colocam em risco a sua integridade. E se Carlos Alberto Torres anunciar que alguns jogadores mais caros do
elenco precisam ser negociados? Qual o comportamento da diretoria? Essa
resposta só vai ocorre nos próximos dias. Outro aspecto
que não deve deixar de ser citado: o técnico resistirá
ao fato de pretender acabar com o sistema de trabalho chamado de "Democracia
Corintiana" ou também será vencido pelo regime? Na cinzenta Moscou ou na poluída de Nova Iorque, na Velha ou na
Nova República (para agradar todas as tendências) somente
terão sucessos os profissionais que se aplicarem integralmente.
E isso vale para todos os ramos da atividade humana. Mas, sem dúvida,
nem sempre os sistemas de trabalhos ideais são os mais cômodos
ou menos desgastantes. No tênis, na natação, no xadrez,
na medicina, no cinema, no teatro, as vitórias não fazem
parte da vida daqueles que trabalham sem aplicação plena.
E isso vale para treinadores e jogadores de futebol.
WANDERLEY NOGUEIRA |
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