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O democrata Carlos Alberto quer o fim desse sistema

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O DEMOCRATA CARLOS ALBERTO QUER O FIM DESSE SISTEMA













Em matéria realizada pelo jornal A Gazeta Esportiva, Wanderley Nogueira mostra que o ex-técnico do Corinthians, Carlos Alberto Torres, quer o fim da "Democracia Corintiana". Em julho de 1985.

(De Wanderley Nogueira, especial para A Gazeta Esportiva) -Quando o brilhante publicitário criou o slogan "Democracia Corintiana" ele já sabia que a repercussão seria positiva. Afinal, a nação estava ansiosa por viver democraticamente. A palavra democracia era sinônimo de oxigênio. Milhares de brasileiros sonharam e trabalharam por ela, para a sua implantação plena, algo que até hoje não ocorreu.

O sistema de trabalho apresentado por Adílson Monteiro Alves, batizado oportunamente com o nome de "Democracia Corintiana", teria sido realizado normalmente se, por exemplo, fosse qualificado como "liberdade e responsabilidade". Mas pela conhecida atuação política do ex-vice-presidente do Corinthians, o chamamento democrático foi considerado muito mais interessante e ideal na opinião dos ideólogos consultados.

A inovação foi recebida com agrado pelos jogadores. O fato de o Corinthians "acabar com a concentração" para os casados foi recebido com vibração pelos jogadores e pelas esposas. Além disso, Adílson implantou reuniões diárias, assuntos discutidos, "roupas lavadas" e falhas corrigidas. Mas nem todos os jogadores estavam entendendo o método e os caminhos desse sistema de trabalho. Os que não conseguiram absorvê-los foram postos à margem, ignorados.

Quase tudo era discutido e aqueles com maiores poderes de argumentação defendiam teses e posturas, não raro a aprovação surgia por unanimidade. Publicamente, "o grupo está fechado", dizia Adílson Monteiro Alves. Mas, na realidade, os introvertidos, constrangidos, sem condições de contra-argumentar. Liderado pelo cérebro talentoso de Sócrates, o Corinthians ganhou jogos, pontos precioso e títulos. O sistema de trabalho tornou-se o assunto preferido por todos os cantos do país. Era absurdamente impossível se falar de futebol sem abordar a "Democracia Corintiana".

Mas ela também faz as suas vítimas, como qualquer outro regime. Capitularam Mário Travaglini, Jorge Vieira, Jair Picerni e ficaram marcado jogadores considerados opositores, como Biro Biro, por exemplo. Ao longo de toda a implantação da "Democracia Corintiana" surgiram denúncias, quase sempre não levadas a sério, de que "tem gente confundindo democracia com bagunça". Os técnicos que caíram abatidos aos pés do regime (Travaglini, Vieira, Picerni) garantiram que o sistema de trabalho adotado por Adílson Monteiro Alves estava sendo distorcido, ingressando por caminhos da anarquia e irresponsabilidade. Todos eles disseram isso e evidentemente foram contestados e até acusados de conservadores e ditadores.

Adílson Monteiro Alves foi buscar Carlos Alberto Torres. E, sem dúvida, foi uma das contratações mais badaladas do futebol brasileiro. Além de ter envolvido milhões de cruzeiros, a contratação do técnico levou até equipamentos especiais para a transmissão ao vivo por televisão. E esse é o técnico que vem a público, oficialmente, e diz que esse negócio de "Democracia Corintiana tem que acabar". Carlos Alberto Torres diz que o sistema de trabalho é falho, não é sério, não é profissional e nenhum "técnico ou time terá sucesso ou vai alcançar alguma coisa se esse conceito não mudar".

Os próprios jogadores admitem que "as coisas não vão bem, que o elenco está desunido e que alguma coisa precisa acontecer". Vladimir rejeita a tese do treinador, que defende o fim do sistema de trabalho chamado de "Democracia Corintiana". As divisões proliferam e o clima no Corinthians é tenso. Não há lugar para todos no Parque São Jorge. Isso é definitivo.

A diretoria garante que vai prestigiar o treinador e isso significa que realizará a reformulação imediata exigida pelo técnico: dispensar, emprestar, vender e contratar. E Carlos Alberto já até sugeriu o nome de Nunes, "um jogador que se aplica sempre, quer ganhar sempre e não existe nunca".

Todos os sintomas mostram que no Corinthians o respeito é muito frágil. E a restituição do projeto é muito mais difícil do que a do dinheiro, como diria o Padre Antônio Vieira. Os ideais de Adílson Monteiro Alves são conhecidos e todos eles agradáveis de serem defendidos. Mas precisa ficar bem claro que o sistema de trabalho chamado de "Democracia Corintiana" consiste em não só acabar com a concentração e discutir todos os problemas do grupo. Isso é simplista demais para ser chamado de sistema revolucionário.

O que Adílson Monteiro Alves pretendeu e que até mesmo no tempo em que dirigiu o futebol do clube foi desvirtuada a presença da responsabilidade, aplicação, honestidade, seriedade e compreensão... tudo naturalmente. Ele lutou para que os profissionais do futebol entendessem que não precisavam ser tratados como garotos travessos, que recebem palmadas na bunda diariamente.

Carlos Alberto Torres, atual técnico do Corinthians, diz que ele deseja trabalhar com "jogadores que queiram ganhar muito dinheiro e isso significa trabalhar duro e seriamente. E mais: treinar com aplicação, cumprir horários estabelecidos pela organização de futebol, procurar corrigir os seus defeitos e aceitar as decisões do treinador, como ficar no banco de reservas, por exemplo".

E além da posição de Carlos Alberto Torres, a diretoria do clube precisa assumir uma postura de comando. Sem o surgimento da temível ditadura, mas um comportamento que projete segurança diante dos torcedores e dos próprios integrantes do futebol corintiano. Sem cometer injustiças, o Corinthians precisa eliminar todas as rachaduras que afetam a sua estrutura e colocam em risco a sua integridade.

E se Carlos Alberto Torres anunciar que alguns jogadores mais caros do elenco precisam ser negociados? Qual o comportamento da diretoria? Essa resposta só vai ocorre nos próximos dias. Outro aspecto que não deve deixar de ser citado: o técnico resistirá ao fato de pretender acabar com o sistema de trabalho chamado de "Democracia Corintiana" ou também será vencido pelo regime?

Na cinzenta Moscou ou na poluída de Nova Iorque, na Velha ou na Nova República (para agradar todas as tendências) somente terão sucessos os profissionais que se aplicarem integralmente. E isso vale para todos os ramos da atividade humana. Mas, sem dúvida, nem sempre os sistemas de trabalhos ideais são os mais cômodos ou menos desgastantes. No tênis, na natação, no xadrez, na medicina, no cinema, no teatro, as vitórias não fazem parte da vida daqueles que trabalham sem aplicação plena. E isso vale para treinadores e jogadores de futebol.

 

 

 

 

 

WANDERLEY NOGUEIRA

   
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