BIOGRAFIA
 
Quem é Wanderley
O apoio da família
O bom humor
30 anos de rádio
A amizade
Dicas para viver bem
 




 

Wanderley Nogueira

Entrevista a Álvaro Alves de Faria, extraída do livro "Jovem Pan: A Voz do Rádio" (RG Editores)

Wanderley Nogueira é uma pessoa que, estando em Lisboa às 3 horas da madrugada (23 horas no Brasil), numa casa de fados na Alfama, ao lado de sua mulher Nilde, liga pelo celular e diz:

- Poeta, estou tomando um vinho e me lembrei de você. Quero que você ouça este fado.

E deixa o som do fado com seu poema de amor atravessar o Oceano Atlântico.

Depois pergunta:

- Gostou?

Em seguida diz:

- Tomo um gole em sua homenagem!

E desliga.

Coisas assim revelam quem é Wanderley Nogueira, repórter de esporte da Jovem Pan, amado por todos por sua competência e cordialidade constante em tratar com as pessoas, com seus cinco cães e ao cuidar, todos os dias, da gruta que tem no enorme quintal, homenagem à Nossa Senhora...

- Como você começou na profissão?

- Eu trabalhava em jornais e trabalhava também no Grupo Sílvio Santos. Trabalhei 12 anos no Grupo Sílvio Santos. Então, era uma loucura porque eu trabalhava até às seis da tarde no escritório central do Grupo Sílvio Santos e saía, tirava o terno, e ia embora para a redação dos Diários Associados, na rua Sete de Abril, ou para a Federação. Depois eu comecei a assinar uma coluna chamada FPF Pegando Fogo. Era uma coluna bem apimentada e era uma coluna muito legal no Diário Popular e no Popular da Tarde. Fiz isso todo esse tempo. Quando chegou num determinado momento, cheguei para a Nilde, minha mulher - nós tínhamos casado em 75 - e disse para ela que não suportava mais. Disse que ia pedir demissão do Grupo Silvio Santos. É uma maravilha, eu adoro trabalhar lá, mas o meu negócio é jornalismo, mesmo. Não tem jeito. Isso foi mais ou menos em 1977.

- Você fazia jornalismo no Grupo Silvio Santos?

- Não, eu trabalhava na área de propaganda e marketing. Andava de terno, tinha secretária, essas coisas todas. Mas eu falava: não tem mais jeito. Eu vou ficar doente, quero jornalismo. Só para se ter uma idéia, eu ganhava cinco vez mais do que a oferta que eu tive na ocasião para trabalhar na Rádio Jovem Pan. Eu perguntei para a Nilde: "Quando a gente precisa para viver?". Fizemos as contas. Deu para empatar. A proposta cobria rigorosamente as despesas, mais nada. Quer dizer, a gente não podia ter nem uma gripe. E lá, no outro emprego, o dinheiro sobrava. Cinco vezes mais. Aí, eu falei para ela: "Você topa?" Ela respondeu: "Topo". Então, vou pedir demissão. Pedi demissão.

Todos foram maravilhosos comigo, queriam que eu continuasse. Foi exatamente na época em que o Sílvio comprou a TV Record. Eles disseram: "Então, já que você quer trabalhar com jornalismo, a gente arruma uma maneira de você ir para a TV Record". Mas eu não aceitei. Eu queria cortar o cordão, eu queria a Jovem Pan. Antes de sair falei: "Só peço um favor: se não der certo na Jovem Pan, gostaria que vocês deixassem a porta aberta para mim". Fechado. E eu fui. Então, fui ganhar cinco vezes menos e minha filha estava quase nascendo, a Patrícia. Eu entrei na Jovem Pan no dia 7 de julho de 1977 e a Patrícia nasceu no dia 13 de julho de 1977. Alguns dias depois de eu começar na Pan. Então, ela cresceu aqui na Pan. Cresceu comigo na Pan.

E aí eu fiquei aqui fazendo coisas, fiz muita coisa legal ao longo desses quase vinte e cinco anos de Pan. São coisas que me marcaram tremendamente. Jornalisticamente, acho que foi uma coisa gratificante. Eu estava voltando agora de Fortaleza, junto com o Choquito e durante a viagem eu comecei a contar algumas coisas importantes para ele. Por exemplo: eu acho que a Jovem Pan, neste momento, vive, na minha visão, seu melhor momento. Eu sinto isso. Eu estou na rua, faço transmissões nacionais e internacionais. Sinto que a Jovem Pan vive seu melhor momento. Na minha visão, vive seu melhor momento técnico, operacional. Posso dizer isso porque eu já tive de amarrar fio em árvore para transmitir e hoje a gente está no estágio do telefone celular. A Pan vive seu melhor momento técnico e dispõe de condições operacionais que dificilmente outra emissora tem a oferecer. Claro que a gente sempre busca a perfeição, virão novos equipamentos, escorregamos em alguns momentos mas, no conjunto da obra, a gente vive nosso melhor momento operacional e de estrutura.

Eu estou citando isso porque, um dia antes do jogo do Brasil com a Iugoslávia, a Pan foi a única rádio que conseguiu fazer a entrevista coletiva do técnico Luis Felipe Scolari ao vivo, num subterrâneo dentro do estádio Plácido Castelo, em Fortaleza. A única que teve condições operacionais de fazer. Cortamos a "Hora da Verdade" para entrar com a entrevista. O José Carlos Pereira tem sensibilidade para ouvir o apelo que fiz lá. Pedi que cortasse a "Hora da Verdade", explicando que só nós estávamos fazendo isso. A "Hora da Verdade" foi encerrada vinte minutos antes para a gente poder transmitir e só nós transmitimos. Aí, já invadiu o horário do Pique da Pan. São pequenas coisas que marcam a velocidade do rádio, a agilidade da decisão, é o conjunto da obra. Quer dizer, alguém que está lá tem que ter sensibilidade, alguém que está aqui também precisa acreditar no que você está fazendo. Você tem que ter o apoio de uma central técnica, senão você está morto. Então, é o conjunto da obra.

Eu citei o meu trabalho porque estamos conversando sobre mim. Eu não posso falar pela rádio, mas a gente faz coisas incríveis. Na Copa da Argentina, em 1978, por exemplo, para entrar no ar, o técnico tinha que puxar os fios pela rua. Imagina isso: tinha que puxar pela rua dois ou três quilômetros de fios desde a base do telefone. E tinha de ser por cima das árvores para ninguém cortar. São coisas incríveis e que, hoje, as pessoas não avaliam o que é isso pela facilidade técnica que tem hoje.

Lembro também a Copa de 1986, no México, de onde só a Jovem Pan conseguiu transmitir a primeira entrevista coletiva do Telê Santana., quando o Brasil desembarcou em Toluca, perto da Cidade do México. A concentração era emprestada pela Nestlé, no meio da estrada. Não tinha telefone e não podia instalar as linhas de transmissão. Todo mundo, inclusive a televisão, estava preparado para gravar a primeira entrevista da Seleção dos Sonhos como a de 1982, que não foi campeã, mas era a Seleção dos Sonhos. Fomos a única rádio a entrar ao vivo. Em 1986, o Bento de Oliveira trabalhava aqui. Nós fomos presos na Usina Nuclear mexicana porque, de madrugada, tentamos encontrar um telefone, um lugar que pudesse servir de base para a transmissão. Mas eram dois quilômetros de distância. Não dava para passar de dois quilômetros para ter um telefone porque o equipamento que a gente dispunha só tinha alcance para essa distância. Então, para fazer ao vivo, a base para receber tinha que estar, no máximo, até dois quilômetros. E era no meio da estrada. A entrevista do Telê era no outro dia, às 10 horas da manhã.

Então, eu e o Bento saímos de madrugada à procura de um telefone. Só nós, da Jovem Pan. E aí, do outro lado da estrada, vimos uma placa com a inscrição "Inin", que não tinha a mínima idéia do que era. Pensei que era uma cidade. Era o Instituto Nacional Nuclear, alguma coisa assim. Então, eu entrei naquela estradinha e metrificando desde a porta da concentração para saber onde poderíamos ir para encontrar um telefone. E terminou num enorme portão, igual ao portão do Estádio do Morumbi. Acabou a estrada. Eu tinha barba e desci com o comunicador na mão: "Bento, eu cheguei aqui mas acabou". Quando terminei de falar, tinha uma metralhadora na minha cabeça. Eu estava na porta da Usina nuclear mexicana... o cara pensava que eu era um terrorista. Fui preso e só deu tempo de falar: "Bento, vem para cá do outro lado". O Bento veio e foi preso também. Fomos presos pelo exército mexicano.

Passamos a madrugada toda explicando primeiro para o sargento, depois para o tenente, aí para o major, depois chamaram o coronel. Foi um escândalo. A madrugada toda nós dois dentro da usina nuclear tentando explicar para eles que a Seleção Brasileira, no dia seguinte, estava lá em frente, vai dar uma entrevista coletiva, o Telê Santana vai falar para o Brasil, é muito importante isso. A gente quer fazer essa transmissão ao vivo e precisa de um telefone. O senhor não vai gastar nada, não vai ter nenhum custo para o Estado mexicano. O senhor me dá só o número. Era um telefone sem disco. Por causa da segurança. Só quero saber o número e alguém vai ligar aqui no horário. Mais nada. Quase no final da madrugada, um oficial disse: "Está autorizado. Pode fazer!". Aí o Bento ficou lá. Conseguimos passar o telefone para a central. O Paulo Freire, que já morreu, ligou para lá e nós preparamos tudo e quando eram 10 horas, nós entramos. Tinha uma diferença de horário estava jogando aqui Palmeiras e Corinthians, alguma coisa assim, no Morumbi. Nós entramos ao vivo de lá e foi um show, porque ninguém conseguiu fazer.

» Continua

   
Resolução mínima de 800x600 © Copyright 2004, Wanderley Nogueira, todos os direitos reservados.